segunda-feira, 1 de março de 2010

FALHANÇO DIPLOMÁTICO DE MBEKI



Publicado “Magazine Independente” Ano II no 73 Página 8 de 27/08/2008

Sempre que haja um desacordo entre duas partes, procura - se encontrar um mediador que tenha acesso livre às duas partes em conflito, para em nome de uma e de outra, junto da outra, obter um acordo, que dê as partes a percepção de que apesar de tudo, poderão ganhar alguma coisa, com as garantias mínimas, concessões, etc., obtidas ou cedidas pelos envolvidos no desacordo. É fundamental contudo que as partes em conflito, tenham confiança no mediador escolhido, voluntário ou com afinidades culturais, linguísticas, sociais etc. ou às vezes até imposto por terceiras partes ou pressões nacionais ou internacionais. Quanto ao perfil ideal do mediador selecionado, tem de ser sobretudo honesto, totalmente imparcial, para com as partes em conflito, assim como ser um comunicador por excelência, para transmitir a cada uma das partes, o que houver de mais realista, fiel e honesto sobre o conflito a que disser respeito, e clarificar a cada uma das partes, os objectivos que se pretende atingir com a mediação, geralmente em separado primeiro e mais tarde, elevado que foi o nível de confiança de cada uma, para as duas em conjunto.
Mediações, podem ser longas em termos temporais. Lembrar por exemplo, que o Acordo Geral de Paz em Moçambique demorou 2 anos a ser negociado em Roma, com o objectivo de pôr termo à guerra entre duas partes do mesmo país, que divergiam nas respectivas opções políticas, económicas e sociais, que cada uma delas preconizava como a melhor para Moçambique, dito independente. A Comunidade de Santo Egídio, paróquia católica romana, foi a mediadora do Acordo, com sucesso, pois aparentemente foi das poucas entidades, que inspirava confiança aos dirigentes dos dois lados, talvez por causa do papel que a igrejas cristâs, desempenharam na meninice de alguns desses dirigentes, uma vez que nas zonas rurais, urbanas e periféricas das cidades no tempo colonial, essas religiões, geriam várias instituições de ensino de diversos níveis de educação e saúde básicas.
Vêm os dois paragráfos anteriores a propósito do incontornável pré - acordo tripartido assinado pelos dirigentes dos partidos políticos mais representativos no Zimbabwe, nomeadamente Arthur Mutambara, Robert Mugabe e Morgan Tsvangarai, onde os dois últimos, até apertaram as mãos um do outro, coisa que não acontecia há mais de 10 anos, sob mediação do presidente sul - africano Thabo Mbeki, a mando da SADC.
Esta decisão da SADC, destinada apenas a dar alguma credibilidade internacional à organização, a luz dos seus estatutos, que determinam que o chefe de estado de qualquer país membro, tem de ser democráticamente eleito, está condenada a falhar porque:

1 - Robert Mugabe pressionado por Thabo Mbeki, a quem considera um aliado que de facto é, apenas concordou em negociar por pressão das sanções reforçadas impostas ao Zimbabwe pelos Estados Unidos e União Europeia, um vez que a economia zimbabweana está na falência técnica completa, e precisará de qualquer tipo de assistência económica, por parte dos doadores e instituições internacionais, dos países do primeiro mundo, que só se materializará, se as negociações forem concluídas com sucesso. Prova de que assim é, foi a recente atitude dos amigos chineses ao recusar polida mas categóricamente, a visita de Mugabe à China, por ocasião da cerimónia de abertura dos Jogos Olimpícos em Beijing. Robert Mugabe, nas negociações que lhe foram impostas pela comunidade internacional, não tem qualquer intenção de ceder seja o que fôr, em termos de poderes, que detêm como presidente do Zimbabwe, que diz ser nos próximos 5 anos;
2 - Thabo Mbeki tem uma posição de mediador imparcial, totalmente esvaziada de conteúdo, por à partida, favorecer uma das partes, como todas as partes envolvidas, bem o sabem, procurando apenas “inventar” à medida que as conversações decorrem, uma maneira de dar continuidade à liderança de Mugabe, com mais ou menos poderes, que seja aceite internacionalmente, como credível.
3 - Arthur Mutambara líder de uma pequena facção partidária da oposição, correu para o palácio presidencial em Harare, mesmo antes da assinatura do acordo tri - partido, para dizer em alto e bom som “estou aqui” pelo que se contentará com qualquer migalha, que lhe fôr oferecida, como parecem indicar as últimas notícias divulgadas sobre o assunto.
4 - Morgan Tsvangarai, nas negociações em curso, insiste que o seu partido, ganhou as eleições legislativas de 29 de Março de 2008, como de facto é reconhecido pela própria Comissão Eleitoral Zimbabweana(ZEC), depois de contagem e recontagem de votos que demoraram mais de 30 dias após eleições, a serem publicados, e um período de duração de apenas 2 anos, pelo que exige poderes executivos no governo que sair das negociações em curso, recusando tarefas como a de “office boy” como aparentemente, lhe foi oferecida ou pelo mediador ou por Mugabe.

Concluíndo: Poucos são aqueles que a nível da liderança regional, para quem a comunidade internacional agora olha expectante, à espera de uma resolução, serão capazes de assumir que desenvolvimento no Zimbabwe, só é possível sem Mugabe, que ao persistir na sua teimosia de permanecer no poder, só compromete internacionalmente cada vez mais os seus pares regionais, em vez de sair “graciosamente” como Senghor, Mandela, Chissano, Kaunda, que se tornaram figuras de renome internacional nas fundações de que são patronos. Em vez disso, Mbeki mais uma vez é humilhado internacionalmente como mediador, pois não tem absolutamente nada, ao fim de inúmeras sessões de negociações, que indique minímamente uma possível solução para a crise no Zimbabwe, para apresentar aos seus pares na 28a cimeira da SADC, em 16 e 17 de Agosto de 2008, em Sandton Johannesburg, que verticalmente o líder do Botswana tem a intenção de boicotar, por considerar Mugabe presidente ilegitímo do Zimbabwe.
Observador Atento

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