segunda-feira, 3 de maio de 2010

FRELIMO DE ONTEM E DE HOJE



Publicada na Página 3 do Diário Independente de 3 de Maio de 2010 - Edição no 517 como Artigo de Opinião

Também Publicado “Magazine Independente” Ano IV n0 161 Página 6 de 05/05/2010 como Artigo de Opinião

Olhando para a história da Frelimo, nos anos que procederam a independência nacional, quando se urbanizou, primeiro debaixo da liderança visionária de Eduardo Mondlane e militarizada de Samora Machel, é lamentável termos de reconhecer que o então digno movimento de libertação, que procurava acima de tudo justiça, transparência, melhor distribuição pelos cidadãos da riqueza do país, por cuja independência política lutava e pelo direito dos moçambicanos de terem um estado e uma nacionalidade, tenha mergulhado na vertical de tais alturas, meteóricamente em um período relativamente curto, para as subterrâneas, pouco claras e míopes alturas de partido político no poder, renegando na sua totalidade a sua própria missão histórica.
A Frelimo de hoje é um animal completamente diferente da Frelimo de antes da independência e a sua actual liderança nos vários orgãos do partido, assim como o seu relacionamento com parceiros dão origem à uma imagem metafórica perfeita do seu carácter, maneira de actuar e compostura presentemente, totalmente alienatória.
Algumas das qualidades que o referido partido “arquivou” no passado mais ou menos recente incluem: A dignidade, honestidade, procura de uma causa justa e a confiança que o povo depositava no partido. Pessoas que eram líderes da Frelimo de ontem e que eram conhecidas por durante a luta de libertação nacional e depois da independência organizar comunidades e educar populações sobre justiça e igualdade, em trabalho voluntário nas bases da guerrilha na Tanzania e nas chamadas células do partido de bairro e local de trabalho, já em território nacional, transformaram - se em indivíduos estranhos, com queixo levantado e semblante carregado, de difícil acesso para uma simples conversa, que usam fato e gravata a maior parte do tempo, conduzem ou são conduzidos em veículos de alta cilindrada, vivem em mansões, preocupados em fazer negócios cuja génese essencialmente se resume apenas a prover ou vender facilidades locais a investidores estrangeiros, em troca de pedaços de terra nos locais que interessam aos investidores, participações sociais minoritárias nos respectivos investimentos que por Lei tem de ter uma percentagem de cidadãos nacionais, simples comissões, luvas, pagamentos por prestação de serviços ou qualquer outra forma de rendimento onde o retorno do capital obtido a custo zero “sacado” do Tesouro Público, Bancos do Estado e outras instituições públicas, seja o dobro do investimento, para no mais curto espaço de tempo, satisfazer novas necessidades e gostos pessoais sofisticados, que entretanto elas e familiares mais chegados adquiriram, atribuindo ou dando “migalhas” da riqueza fraudulentamente gerada que possuem, às gerações mais novas, em troca da respectiva fidelidade canina de ser “bom” rapaz ou “boa” rapariga.
Durante os anos de liderança da Frelimo por Mondlane e até mesmo Machel, a percepção do cidadão moçambicano comum sobre a liderança do então movimento de libertação que conduziu o povo moçambicano, mais solavanco menos solavanco, à independência nacional e geriu os primeiros anos de independência do país, era de que essa liderança tinha uma noção muito exacta das responsabilidades históricas pesadas que carregavam nos ombros e por consequência disso estava profundamente ao corrente das aspirações e necessidades do povo moçambicano. Neste sentido a liderança referida não se preocupava em fazer “teatro” para ganhar popularidade, mas sim tomava as respectivas decisões, baseada na sua consciência ao tempo sem mácula.
Contudo durante a liderança da Frelimo por Chissano, que substituiu Machel ora falecido, na sequência de um acidente aéreo, que curiosamente até hoje essa mesma Frelimo nunca foi capaz de informar o povo moçambicano quais foram as respectivas causas, a maneira de actuar da liderança começou a mudar de uma forma subtil, lenta, diplomática mas irreversível, que na percepção do povo e até do seu sucessor pouco depois de ser conhecido públicamente quem seria, após a substituição em um processo pacífico, mas com clivagens, valeu a Chissano o estigma, alcunha ou cognome de “líder do deixa -andar”.
A liderança da Frelimo por Guebuza foi consolidada após o Congresso de Quelimane, onde os seus veementes apoiantes em alto e bom som prometeram ao povo moçambicano de que Guebuza era um dirigente em contacto permanente com as massas e um quadro disciplinado do partido, realidades que os subsequentes actos de governação e liderança partidária indicaram não ser totalmente verdade, a avaliar pela colossal “salada russa” em que se transformou o actual Estado/Partido em Moçambique.
Os Moçambicanos querem que o partido que lidera o governo use os escassos recursos disponíveis no país para melhorar o nível de vida de todos os moçambicanos, não para enriquecer escandalosamente alguns políticos, seus familiares amigos e conhecidos, como esse mesmo povo, tem a oportunidade de perceber. E não querem um partido político que promova o obscurantismo, a excessiva acumulação de cargos pelas mesmas pessoas (apesar de proibidos por Lei em alguns casos), a corrupção, o egoísmo, a impunidade, os salários mínimos injustos para “inglês e doador ver”, a ganância excessiva por riqueza ilícita, a ausência de um sistema de justiça credível e o fanatismo político partidário, baseado em algumas prácticas reavivadas do monopartidarismo, em detrimento do patriotismo genuíno. O apetite da actual élite politíco partidária, pelas nomeações governamentais e partidárias, de tão desmesurado que é, redefiniu o carácter modesto da Frelimo para uma arrogância sem precedentes (que o G-19 surpreendentemente fez recuar baseado em critérios economicistas) e provocou a erosão da legitimidade histórica da sua missão. Agora tudo parece ser apenas ter a ver com “poder e riqueza” e não mais sobre justiça, transparência e melhor distribuição de riqueza.
Talvez, a pior parte do novo carácter egoísta adoptado pela liderança da Frelimo de hoje, é o facto de que as condições de vida dos seus membros e simpatizantes comuns, que participam e enchem os comícios, as celebrações partidárias e governamentais e as presidências abertas, são no essencial as mesmas ou piores do que o eram em 1975. Ou seja, substituíram a liderança colonial por uma liderança moçambicana, exactamente com os mesmos interesses, sem nada pôr ou tirar, a caminho do terceiro mandato, que inevitávelmente acabará por se materializar, uma vez que os comentários recentes sobre o assunto, de que não irá acontecer, são apenas para “boi dormir”.
Observador Atento

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